Paulo Dantas: o “a favor contra” na campanha de Lula em Alagoas

O nome do presidente não pode funcionar como cortina para as escolhas do governo estadual

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Artigo de opinião

Paulo Dantas anuncia que vai coordenar a campanha de Lula em Alagoas, mas oferece uma contradição difícil de esconder: pede união enquanto promove exonerações que podem espalhar amargura na própria base. No palanque, o discurso é de compromisso. Fora dele, suas decisões exigem explicações sobre lealdade política, responsabilidade administrativa e prioridades de fim de governo.

Em levantamento feito por nossa equipe identificamos 504 decretos de exoneração entre 5 e 13 de outubro. São atos administrativos, não necessariamente 504 pessoas desligadas, pois existem duplicidades e cancelamentos. A dimensão das mudanças, porém, está documentada e não pode ser tratada como detalhe burocrático.

Por trás dos desligamentos existem famílias para as quais a perda de renda pode significar um fim de ano de insegurança. Para os atingidos que tenham trabalhado pelas campanhas dos aliados do governador, o sentimento de abandono pode ser ainda mais profundo.

Dispensar pessoas e deixar que enfrentem sozinhas as consequências, sem explicações públicas à altura, é uma postura politicamente covarde. Cargo público não é recompensa eleitoral, mas essa verdade não autoriza governante algum a tratar trabalhadores como peças descartáveis.

Enquanto isso, o Estado passou temporariamente ao comando do presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Fábio Bittencourt, após o afastamento de Dantas, a renúncia de Ronaldo Lessa e a indisponibilidade de Marcelo Victor. A substituição segue a ordem sucessória constitucional. Politicamente, entretanto, o governador continua responsável pelas decisões de sua gestão: afastar-se da cadeira não o afasta da obrigação de prestar contas.

É nesse cenário que a mudança nas regras da Arsal merece atenção redobrada. O projeto encaminhado pelo governo Dantas teve sua votação concluída em 14 de outubro e foi sancionado no mesmo dia pelo governador interino. A nova lei estabelece mandatos de cinco anos para a direção da agência. A velocidade da conclusão do processo contrasta com as explicações que ainda precisam chegar à população. 

O noticiário político relaciona essa movimentação à possível ida de Otávio Lessa para a Arsal, abrindo uma vaga no Tribunal de Contas para a qual Paulo Dantas é apontado como provável indicado. Trata-se de uma articulação noticiada, ainda não de uma nomeação consumada. A justificativa apresentada para a mudança na agência é de adequação regulatória; isso não elimina a necessidade de esclarecer seus efeitos políticos e institucionais. 

Para quem está na ponta, exoneração. Para a cúpula, a perspectiva de mandatos prolongados e novos espaços de poder. Esse contraste é politicamente devastador.

Se a movimentação se confirmar nos termos noticiados, a cobrança será inevitável: o interesse público orientou a reorganização ou serviu de cenário para acomodar o futuro de integrantes do grupo? Uma agência reguladora não pode ser tratada como sala de espera para rearranjos no Tribunal de Contas.

Paulo Dantas precisa explicar esse conjunto de decisões sem se esconder atrás da campanha de Lula. O nome do presidente não pode funcionar como cortina para as escolhas do governo estadual.

É essa postura que sustenta a crítica do “a favor contra”: declara apoio, mas cria condições para ressentimentos que podem dificultar a mobilização. Não é necessário presumir sabotagem deliberada para reconhecer a contradição.

Quem pretende coordenar a esperança de Lula em Alagoas precisa demonstrar que sua prioridade não é apenas organizar o próprio amanhã enquanto outras famílias ficam sem saber como atravessar dezembro.