Eu,
filho do Dono do Mundo,
que carrego no peito as marcas dos ventos
e os sorrisos que o tempo me deu,
hoje celebro 56 primaveras
bem vividas, bem sentidas, bem digeridas,
entre o mel suave do amor
e o travo amargo do dissabor.
Caminhei da alegria cristalina
à nostalgia que aperta o peito,
da emoção transbordante
à ilusão escura e sem norte.
Eu vi jovem ainda
o clamor pela anistia ecoar nas ruas,
e as Diretas agitarem a pele da nação
como um sopro de luz no corpo da História.
Meu coração juvenil nem sabia
que testemunhava um tempo santo,
mas a alma sabia e se arrepiou.
Fui voz de estudante recém-liberto,
eco do sonho que não se cala:
o direito à escola aberta,
à meia-entrada no ônibus e no teatro,
ao estádio e ao riso partilhado;
fui bandeira viva da juventude
que conquistou o direito de votar aos 16
e o dever de erguer a voz contra o arbítrio.
Aprendi a amar as ruas
e a cuidar delas:
no Lar Sementes do Amanhã
colhi flores onde o mundo via pedras,
toquei vidas que pediam acolhida,
e plantei futuros invisíveis
para que a esperança tivesse onde dormir.
Depois, na lida do jornalismo,
defendi o verbo livre como asas;
e na advocacia,
tornei-me guardião da dignidade humana,
fiador da justiça que deve morar
no coração de todos os homens.
E hoje, ao olhar minha própria história,
não peço desculpas ao tempo:
eu confesso
eu vivi.
E sigo vivendo,
inteiro, firme, aceso,
com toda a força da minha alma
e com a gratidão que me ergue
sempre mais alto.
Obrigado, meu Deus,
por cada estrada,
cada lágrima,
cada vitória,
cada porquê e cada talvez.
Eu sou
e continuo sendo
filho do Dono do Mundo.
E meu coração
ainda é jovem.